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O que grandes eventos ensinam sobre construção de baixo carbono

O verdadeiro legado da infraestrutura não deveria ser medido apenas pela sua utilidade após o evento, como a Copa do Mundo, mas pela forma como é concebida, construída e integrada aos desafios ambientais na atualidade

Assessoria de Imprensa

14/07/2026 07h30


*Por Ana Belizário

A cada ciclo de Copa do Mundo, Olimpíadas ou grandes eventos internacionais, uma pergunta inevitavelmente volta ao debate público: qual legado ficará depois que as luzes se apagarem?

Historicamente, a resposta costuma se concentrar em aeroportos, sistemas de transporte, arenas esportivas e outras obras de infraestrutura realizadas para atender demandas imediatas. Mas, em um contexto de emergência climática e metas globais de descarbonização, talvez seja hora de ampliar essa reflexão.

O verdadeiro legado da infraestrutura não deveria ser medido apenas pela sua utilidade após o evento, mas pela forma como &e

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*Por Ana Belizário

A cada ciclo de Copa do Mundo, Olimpíadas ou grandes eventos internacionais, uma pergunta inevitavelmente volta ao debate público: qual legado ficará depois que as luzes se apagarem?

Historicamente, a resposta costuma se concentrar em aeroportos, sistemas de transporte, arenas esportivas e outras obras de infraestrutura realizadas para atender demandas imediatas. Mas, em um contexto de emergência climática e metas globais de descarbonização, talvez seja hora de ampliar essa reflexão.

O verdadeiro legado da infraestrutura não deveria ser medido apenas pela sua utilidade após o evento, mas pela forma como é concebida, construída e integrada aos desafios ambientais na atualidade.

Ao redor do mundo, grandes eventos frequentemente impulsionam ciclos acelerados de construção. Embora possam gerar benefícios urbanos relevantes, também levantam questionamentos sobre o impacto ambiental associado a obras de grande porte, especialmente quando envolvem estruturas temporárias, elevados volumes de materiais intensivos em carbono e ciclos de uso relativamente curtos.

Esse debate ganha importância à medida que cidades e países assumem compromissos climáticos cada vez mais ambiciosos.

A construção civil responde por uma parcela significativa das emissões globais de gases de efeito estufa e uma parte relevante desse impacto está concentrada na fabricação dos materiais utilizados e nos processos construtivos. Em outras palavras, o legado ambiental de uma obra começa muito antes de sua inauguração.

Nesse cenário, a infraestrutura passa a ser analisada sob uma nova perspectiva. Não basta que um edifício, terminal ou equipamento urbano seja eficiente durante a sua operação.

É necessário considerar também sua pegada de carbono ao longo de todo o seu ciclo de vida, desde a extração dos insumos até sua eventual desmontagem ou reutilização.

Essa mudança de visão tem estimulado a busca por soluções construtivas capazes de combinar desempenho, durabilidade e menor impacto ambiental.

Entre elas, a madeira engenheirada vem ganhando espaço em diferentes mercados internacionais, tanto em edifícios corporativos quanto em equipamentos públicos e projetos de infraestrutura urbana.

Sistemas como CLT (Cross Laminated Timber) e glulam (madeira laminada colada) permitem construções de alto desempenho estrutural com menor intensidade de carbono quando comparadas a sistemas convencionais.

Além disso, a madeira proveniente de manejo florestal responsável atua como reservatório natural de carbono, contribuindo para uma lógica construtiva mais alinhada às estratégias de descarbonização.

Mais do que uma substituição de materiais, trata-se de uma mudança de paradigma. A discussão deixa de ser apenas sobre construir mais rápido ou atender a uma demanda específica e passa a incorporar questões como eficiência no uso de recursos, industrialização, redução de desperdícios e impacto climático de longo prazo.

Grandes eventos esportivos possuem uma característica particular: funcionam como vitrines para tendências urbanas, tecnológicas e construtivas.

As soluções adotadas nesses projetos frequentemente influenciam políticas públicas, investimentos e padrões de mercado durante anos. Por isso, representam uma oportunidade importante para demonstrar que infraestrutura de qualidade e responsabilidade ambiental não são objetivos incompatíveis.

O conceito de legado, nesse contexto, precisa evoluir. Uma obra bem-sucedida não é apenas aquela que continua em uso após o encerramento de um evento. É também aquela que reduz emissões, utiliza recursos de forma mais inteligente, gera menos desperdício e contribui para uma cidade mais resiliente.

A transição climática exige que repensemos não apenas o que construímos, mas como construímos. E as decisões tomadas hoje em grandes projetos de infraestrutura terão impacto por décadas, tanto na paisagem urbana quanto na trajetória de emissões das cidades.

Talvez o principal ensinamento que os grandes eventos possam deixar para o setor da construção seja justamente de que o legado mais valioso não está apenas na obra que permanece, mas sobretudo na forma sustentável como foi realizada.

*Ana Belizário é diretora da Urbem, indústria brasileira de madeira engenheirada de larga escala, que atua no setor da construção civil

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