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Revista GC - Ed.111 - Maio/Junho de 2026
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SUPLEMENTO – ENGENHARIA & INOVAÇÃO

O mais valioso (e desperdiçado) dos ativos

Sistema de saneamento falha em silêncio, mas o preço da deficiência estrutural é estarrecedor, com mais de 7 bilhões de m3 de água perdidos anualmente no país
Por Filipe Honorato
Índice médio de perdas nas redes brasileiras alcança 37%, enquanto operadores avançados operam abaixo de 10%. Foto: BRK

O Brasil abriga 12% de toda a água doce superficial do planeta. Parece abundância, mas essa disponibilidade comporta um paradoxo.

Enquanto o país ostenta a maior reserva do mundo, quase metade da água tratada some das redes antes de chegar à torneira do consumidor – desperdiçada entre canos envelhecidos, juntas mal vedadas e registros descalibrados.

O sistema rodoviário faz barulho quando colapsa, seja devido a buracos, congestionamentos ou acidentes.

Já o sistema de saneamento falha em silêncio, mas o preço da deficiência estrutural é ensurdecedor.

Estima-se que mais de 7 bilhões de m3 de água sejam perdidos anualmente no país, volume suficiente para abastecer toda a população do estado de São Paulo por d


Índice médio de perdas nas redes brasileiras alcança 37%, enquanto operadores avançados operam abaixo de 10%. Foto: BRK

O Brasil abriga 12% de toda a água doce superficial do planeta. Parece abundância, mas essa disponibilidade comporta um paradoxo.

Enquanto o país ostenta a maior reserva do mundo, quase metade da água tratada some das redes antes de chegar à torneira do consumidor – desperdiçada entre canos envelhecidos, juntas mal vedadas e registros descalibrados.

O sistema rodoviário faz barulho quando colapsa, seja devido a buracos, congestionamentos ou acidentes.

Já o sistema de saneamento falha em silêncio, mas o preço da deficiência estrutural é ensurdecedor.

Estima-se que mais de 7 bilhões de m3 de água sejam perdidos anualmente no país, volume suficiente para abastecer toda a população do estado de São Paulo por dois anos.

Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), o índice médio de perdas nas redes alcança 37% – enquanto os operadores mais avançados do mundo operam abaixo de 10%.

Cidades como Singapura (abaixo de 5%), Tóquio (3%) e Berlim (4%) demonstram que o problema é tecnicamente solucionável.

Em uma mobilização sem precedentes, a China reduziu os índices médios de perdas em cidades de médio porte de 28% para 15% entre 2015 e 2023, investindo mais de US$ 120 bilhões em modernização.

A Europa, liderada pela Holanda e países escandinavos, há tempos integra sensores, gêmeos digitais e IA na gestão da água.

E, agora, um novo ecossistema de inovação – incluindo startups de WaterTech, plataformas de telemetria hídrica e novos materiais para tubulações – vem redefinindo o que é possível ser feito.

No Brasil, a Sabesp mira metas agressivas de redução de perdas. A Aegea, o Grupo Iguá e a BRK também avançam com tecnologia em regiões antes consideradas inviáveis economicamente.

É o início de uma transformação estrutural. Todavia, a maior disrupção não vem das tubulações, mas dos dados.

Sensores acústicos que “escutam” o subsolo em busca de vazamentos, plataformas de IA que predizem rupturas com antecedência e gêmeos digitais que simulam a pressão em cada quilômetro de rede mostram que o futuro da água não depende apenas da engenharia civil, mas também da engenharia de dados, como mostramos nesta edição.


O gargalo que o país não vê

Como o desperdício hídrico se tornou o maior déficit oculto da infraestrutura nacional, resultado da falta de modernização tecnológica e de subinvestimento histórico

Foto: ABM

Imagine uma fábrica que perde mais de um terço de tudo que produz antes que o produto alcance o cliente.

Qualquer gestor profissional fecharia a operação. Pois é exatamente isso que acontece nas redes de distribuição de água do Brasil – dia após dia, em silêncio, embaixo das cidades que dormem.

As perdas de água em sistemas de abastecimento se dividem em dois grandes grupos: perdas reais (físicas), decorrentes de vazamentos em tubulações, juntas e reservatórios, que representam cerca de 60% do total no Brasil, e perdas aparentes (comerciais), causadas por ligações clandestinas, erros de medição e fraudes, que correspondem aos demais 40%.

Cada tipo exige uma abordagem distinta, mas ambos convergem para um único denominador: falta de modernização tecnológica e subinvestimento histórico.

O envelhecimento das redes é o principal vilão.

Segundo levantamentos do Instituto Trata Brasil (ITB), mais de 40% das tubulações das principais capitais brasileiras têm mais de 30 anos de operação, com materiais (como ferro fundido e amianto-cimento) cuja vida útil projetada já está amplamente superada.

Nessas condições, a degradação é inevitável e progressiva, sendo que os vazamentos não visíveis (os chamados “vazamentos ocultos”) podem responder por até 30% das perdas sem que uma única ruptura visível seja registrada.

Nos estados com piores índices, como Amapá (68%), Rondônia (59%) e Roraima (55%), a situação beira o colapso operacional.

Paradoxalmente, algumas regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro, com maior capacidade técnica, ainda operam com índices entre 25% e 35%, revelando que o problema é sistêmico e não exclusivo das periferias menos desenvolvidas.

“Não há crise de água no planeta, mas uma crise de gestão da água”, comenta Paulo Massato, ex-diretor metropolitano da Sabesp.

“No Brasil, essa crise tem endereço certo: as redes de distribuição.”


O mapa global da inovação hídrica

Um olhar sobre as iniciativas que estão reinventando a distribuição de água no mundo

Estudos do Banco Mundial estimam que o desperdício hídrico no Brasil representa um prejuízo anual superior a R$ 12 bilhões, considerando apenas os custos operacionais de captação, tratamento e distribuição da água que nunca chega ao consumidor.

O número dobra quando se incorporam os custos ambientais – energia elétrica para bombeamento, produtos químicos para tratamento e impacto em mananciais.

A boa notícia é que o diagnóstico já está feito.

O que falta é vontade política, capital e, sobretudo, tecnologia. Nesse aspecto, o mundo avançou de forma exponencial nos últimos dez anos.

A seguir, confira tecnologias-chave que estão transformando a gestão de redes de distribuição de água no mundo e que chegam ao Brasil com força crescente.

SENSORES ACÚSTICOS


Foto: UTILIS

Foco: Detecção de vazamentos subterrâneos invisíveis.

Solução: Sensores instalados em hidrantes e válvulas “escutam” frequências sonoras emitidas pelo vazamento de água sob pressão, permitindo triangular a localização exata da perda sem escavação.

Caso Real: Em parceria com a Utilis (Israel), a Sabesp reduziu 12% das perdas em São Paulo em 2022 usando sensoriamento acústico correlacionado com imagens de satélite de radar.

Referência: www.utilis.com


IA & PREDITIVAS


Foto: IBM

Foco: Predição de rupturas antes que ocorram.

Solução: Algoritmos de machine learning cruzam dados de pressão, temperatura, histórico de rupturas e material da tubulação para calcular o risco de falha de cada trecho da rede com semanas de antecedência.

Caso Real: A Thames Water (Reino Unido) reduziu em 25% as ocorrências emergenciais em 18 meses, após implementar IA da IBM para prever rupturas.

Referência:www.ibm.com/industries/water-management


GÊMEOS DIGITAIS


Foto: BENTLEY

Foco: Simulação virtual da rede hídrica em tempo real.

Solução: Réplicas digitais integram dados de telemetria, sensores IoT e BIM para simular cenários de pressão, identificar zonas críticas e testar intervenções virtualmente antes de qualquer obra.

Caso Real: A Singapore PUB opera um gêmeo digital de toda a rede hídrica (6.000 km) da Cidade-Estado, permitindo respostas a anomalias em menos de 2 h.

Referência:www.bentley.com/software/openflows


TELEMETRIA & MEDIDORES


Foto: ITRON

Foco: Monitoramento em tempo real do consumo e pressão.

Solução: Medidores AMI (Advanced Metering Infrastructure) transmitem dados de consumo e pressão em tempo real, permitindo identificar padrões anômalos de uso que indicam vazamentos ou fraudes.

Caso Real: A cidade de Seul (Coreia do Sul) instalou 1 milhão de medidores inteligentes e reduziu perdas de 22% para 8% em 7 anos.

Referência: www.itron.com


DRONES & LIDAR


Foto: FLYABILITY

Foco: Inspeção remota de infraestrutura hídrica.

Solução: Drones aquáticos e terrestres equipados com sensores LiDAR, câmeras termográficas e sonar mapeiam o estado de tubulações, reservatórios e barragens sem a necessidade de interrupção do abastecimento.

Caso Real: Em 2023, a Copasa (MG) e a Embrapii desenvolveram um piloto de drone subaquático para inspeção de redes sem geração de resíduo sólido de escavação.

Referência: www.flyability.com


A maior mobilização hídrica da história


Foto: BEIJING ENTERPRISES WATER GROUP

Com metas de redução das perdas para menos de 10% nas 36 principais cidades do país, gigante do Extremo Oriente trata a água como questão de segurança nacional

Se o Brasil ainda patina nos índices médios, o mundo já avançou a passos largos – em alguns casos, com saltos de décadas em apenas poucos anos.

No entanto, nenhuma região do planeta moveu o ponteiro de forma tão dramática quanto a China.

E o que conecta essa história de sucesso não é apenas dinheiro, mas a combinação entre dados, regulação e tecnologia.

A China não investe apenas em água, mas a trata como uma questão de segurança nacional.

O 14º Plano Quinquenal (2021–2025) destinou mais de ¥ 850 bilhões (aproximadamente US$ 120 bilhões) ao saneamento urbano, com metas de redução de perdas para abaixo de 10% nas 36 principais cidades do país.

Em 2022, Pequim atingiu 8,7% de perdas e Xangai chegou a 9,3%, números comparáveis aos melhores índices da Europa.

O modelo se apoia em três pilares: regulação severa, concentração industrial e investimento massivo em tecnologia própria.

As empresas e iniciativas líderes do setor incluem a Beijing Enterprises Water Group (BEWG), maior empresa privada de tratamento de água do país, que opera em mais de 40 cidades com tecnologia própria de monitoramento em tempo real.

Destaque do portfólio, o sistema SWIM (Smart Water Integrated Management) é referência em gestão inteligente de redes.

Subsidiária do grupo francês, a Veolia China opera 60 concessões municipais com contratos de performance atrelados a metas de redução de perdas.

A empresa introduziu em larga escala no país o conceito de DMA (District Metered Areas), enquanto a Guangzhou Water Supplyé pioneira na implementação de IoT e Big Data para monitoramento em tempo real de pressão e qualidade da água da rede, reduzindo as perdas de 24% para 11% em 8 anos.

Por sua vez, a Huawei Smart Water Platformdesenvolveu uma plataforma de Water IoT que integra sensores de pressão, qualidade e fluxo com nuvem de dados e IA. A tecnologia já está implantada em mais de 120 municípios chineses e começa a ser exportada para a América Latina.

Já a ZTE Smart City é focada em telemetria hídrica de ponta a ponta. Implantado em Wuhan, seu sistema de gêmeo digital reduziu o tempo de resposta a rupturas de 8 h para 45 min.♦


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