Foto: CÂMARA MUNICIPAL DE PIRACICABAPara debater o cenário de escassez hídrica, desperdícios na rede e desafios ao acesso à água tratada, a Revista Grandes Construções conversou com Rinaldo de Oliveira Calheiros, especialista em Perícia de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, que discorre sobre esses e outros pontos, como as alternativas para evitar o desabastecimento iminente das populações em grandes centros urbanos.
Graduado em Engenharia Agronômica, Calheiros possui mestrado em Irrigação e Drenagem e doutorado em Irrigação e Drenagem, todos pela Universidade de São Paulo (ESALQ/USP).
Além de professor, é pesquisador científico aposentado pelo Instituto Agronômico de Campinas, tendo atuado ainda na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa/MS) e no Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR/PR).
O foco de suas

Foto: CÂMARA MUNICIPAL DE PIRACICABAPara debater o cenário de escassez hídrica, desperdícios na rede e desafios ao acesso à água tratada, a Revista Grandes Construções conversou com Rinaldo de Oliveira Calheiros, especialista em Perícia de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, que discorre sobre esses e outros pontos, como as alternativas para evitar o desabastecimento iminente das populações em grandes centros urbanos.
Graduado em Engenharia Agronômica, Calheiros possui mestrado em Irrigação e Drenagem e doutorado em Irrigação e Drenagem, todos pela Universidade de São Paulo (ESALQ/USP).
Além de professor, é pesquisador científico aposentado pelo Instituto Agronômico de Campinas, tendo atuado ainda na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa/MS) e no Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR/PR).
O foco de suas pesquisas está voltado principalmente para temas como engenharia de irrigação e agricultura irrigada, hidrologia ambiental, conservação de água no meio rural, produção de água em bacias hidrográficas, autossuficiência e sustentabilidade hídrica de empreendimentos, gestão e relação hídrica harmoniosa em territórios.
Atualmente, o especialista é consultor na área de recursos hídricos, com ênfase na produção de água por meio de infraestruturas verdes, além de atuar como consultor técnico-científico autônomo, perito judicial e pesquisador associado da TWRA (Tropical Water Research Alliance), organização internacional dedicada à gestão sustentável de bacias hidrográficas tropicais.
“No Brasil, o Banco Mundial estima que a insegurança hídrica pode reduzir o PIB global em até 6% até 2050”, diz ele.
“Projeta-se que mais de 700 milhões de pessoas possam ser deslocadas pela escassez de água até 2030.”
Acompanhe os principais trechos.
Os riscos de escassez hídrica no planeta atingiram um ponto crítico de inflexão, caracterizado pela ONU como a “era da falência hídrica global”. Isso não indica que a água desapareceu fisicamente, mas sim que os sistemas hídricos foram explorados além de sua capacidade de recuperação, tornando a disponibilidade de água doce insegura e instável em diversas regiões. Esse processo ocorre porque o uso de águas superficiais e subterrâneas acontece em uma taxa muito mais rápida do que a capacidade de recarga da natureza.
Os principais fatores incluem a superexploração da água subterrânea e a deterioração da capacidade de infiltração, percolação e recarga. Além disso, ocorre a degradação física de elementos hidrológicos como nascentes, rios e lagos, assim como dos elementos de preservação, como matas de topo de morro e matas ciliares. A impermeabilização dos solos agrícolas e a ocupação de áreas de acidentes topográficos transformam mananciais antes perenes em sazonais ou definitivamente secos.
Atualmente, cerca de 4 bilhões de pessoas — quase metade da população mundial — vivem sob escassez severa de água por pelo menos um mês ao ano, número que deve subir para dois terços da humanidade até 2050. O Banco Mundial estima que a insegurança hídrica pode reduzir o PIB global em até 6% até 2050, e projeta-se que 700 milhões de pessoas sejam deslocadas pela escassez até 2030. No setor alimentar, estima-se que mais de 1,7 milhão de km² de terras irrigadas enfrentem alto estresse hídrico. No Brasil, modelos preveem redução na disponibilidade hídrica e secas severas no Centro-Leste, Sudeste e Nordeste, aumentando os dias de racionamento em bacias com múltiplos usos, como em São Paulo.
Uso de águas superficiais e subterrâneas acontece em umataxa muito mais rápida do que a capacidade de recarga da natureza. Foto: WAVINA crise hídrica brasileira é alimentada por três fatores: deficiências técnicas, falhas de gestão e mudanças climáticas. Tecnicamente, a engenharia civil foca no efeito (como piscinões e transposições) e não na causa, enquanto a engenharia agronômica negligencia a sustentabilidade da irrigação e a produção de água. Na gestão, os comitês de bacias hidrográficas são, em grande parte, inoperantes, desestruturados e reféns de interesses políticos e setoriais locais.
Basicamente, as mudanças climáticas aceleram o ciclo da água, fazendo com que “lugares úmidos fiquem mais úmidos e secos fiquem mais secos”. O aquecimento global aumenta a retenção de umidade na atmosfera, gerando chuvas intensas e acelerando a evaporação dos solos. O degelo polar e o aquecimento dos oceanos elevam o nível do mar, causando a intrusão salina em aquíferos costeiros. A interferência humana desordenada, como a urbanização e impermeabilização com asfalto e concreto, impede a infiltração da água, reduzindo a recarga subterrânea e intensificando enchentes destrutivas. Outro fator grave é a supressão da vegetação, que diminui a liberação de vapor d'água e afeta os “Rios Voadores”, especialmente os vindos da Amazônia, que transportam umidade para o Sudeste. A poluição por esgotos e resíduos sólidos, somada ao assoreamento de nascentes por erosão, degrada a qualidade e diminui a calha dos rios. A urbanização ainda suprime planícies de inundação (várzeas) e ocupa encostas, aumentando o risco de deslizamentos.
Vivemos uma “Nova Normalidade Climática”, na qual o aquecimento global antropogênico intensifica eventos hidrológicos extremos. No Sudeste, estudos indicam reduções de até 40% na precipitação acumulada. O desmatamento e o mau uso dos solos agrícolas em todo o território nacional, não apenas na Amazônia, destroem o efeito “esponja” natural do solo, impedindo a infiltração e transformando a água em escoamento superficial rápido. Isso causa o assoreamento de reservatórios e a redução das vazões dos rios nos períodos de seca.
Cerca de 4 bilhões de pessoas vivem sob escassez severa de água, quase metade da população mundial. Foto: AGÊNCIA SENADOAs mudanças climáticas romperam a premissa de “estacionariedade”, que supunha que o futuro seguiria os padrões históricos. Hoje, registros passados não servem como guias seguros para projetos de engenharia, como barragens, que podem estar subdimensionados. A gestão agora deve ser adaptativa e baseada em cenários de incerteza, lidando com secas e enchentes simultâneas. É necessário investir em infraestruturas mais resilientes, aumentar a capacidade de armazenamento e focar no gerenciamento de riscos para garantir o abastecimento humano.
O Sudeste enfrenta um regime de chuvas alterado, com redução significativa na recarga de aquíferos e maior imprevisibilidade. No Sul, a combinação de geografia e aquecimento global dobrou a probabilidade de chuvas extremas, transformando eventos que ocorriam uma vez por século em fenômenos decenais. A pressão sobre as águas subterrâneas aumenta à medida que as águas superficiais se tornam inseguras, o que exige considerar alternativas como a recarga artificial de aquíferos com águas pluviais em São Paulo.
Segundo o especialista, esses setores são resistentes às adaptações ao “novo normal” e apresentam um alto “uso consuntivo”, devolvendo pouca água ao sistema após o uso operacional. Em situações de escassez, a agricultura e a indústria são consideradas segunda e terceira prioridades, o que coloca sua própria sustentabilidade produtiva em risco caso não acelerem suas ações de conservação.
Com as mudanças recentes, registros passados já não servem como guias seguros para projetos de engenharia como barragens. Foto: FREEPIKSim, é um problema de gestão crítico. No Brasil, perde-se, em média, 40% da água tratada na rede de distribuição devido a tubulações velhas e falta de manutenção. Em Piracicaba (SP), esse índice supera 50%. Essas perdas custam mais de R$ 10 bilhões anualmente e encarecem a conta para o consumidor. Além do prejuízo financeiro, há o impacto ambiental de retirar da natureza muito mais água do que o necessário e o impacto social, pois esse volume desperdiçado poderia abastecer milhões de pessoas sem acesso à água tratada.
As soluções envolvem Redes Inteligentes (Smart Water Grids) com uso de IoT, IA e automação para detectar vazamentos e gerir o consumo. No curto prazo, as medidas devem incluir redução de pressão noturna, interligação entre sistemas (como a transposição entre as bacias do Paraíba do Sul e Cantareira) e campanhas de conscientização para reduzir o tempo de banho e proibir lavagem de calçadas. A ação mais efetiva e imediata, contudo, seria um programa de infraestrutura verde para o desassoreamento de nascentes e cursos d'água, aumentando a disponibilidade hídrica natural.
Não como panaceia global. Embora consolidada no Oriente Médio, a dessalinização de água do mar é de 1,5 a 4 vezes mais cara que fontes convencionais devido ao alto custo energético e de manutenção. No Brasil, a dessalinização de águas salobras no interior do Nordeste é viável, mas a dessalinização marinha deve ser analisada com cautela para não substituir soluções de menor investimento e ecologicamente superiores, como a recuperação físico-hídrica das bacias por meio de infraestrutura verde.
Além do impacto ambiental, perdas e encarecem a conta para o consumidor. Foto: REPRODUÇÃOSim, o reúso é uma prática consolidada na indústria e agropecuária brasileira, mas exige regulamentação mais ágil para o reúso potável. Mas deve-se ter cuidado para não usar o reúso em atividades de alto consumo em bacias com restrição hídrica, pois isso pode impedir que a água retorne ao corpo hídrico para usuários que dependem dela a jusante. Os principais desafios hoje são a necessidade de maior agilidade na regulamentação de reúso potável e melhor infraestrutura de distribuição.
Os planos diretores para proteção de bacias têm papel fundamental, mas costumam focar excessivamente na área urbana, esquecendo que é a área rural que efetivamente “produz” água. A sustentabilidade hídrica do município depende dessa integração, na qual a cidade cumpre seu papel de reduzir a poluição. A área urbana tem uma função fundamental em relação aos recursos hídricos que é diminuir a poluição e, com isso, garantir a qualidade da água. Sua função de produzir água é significativamente mínima em relação à área rural em praticamente todo o país.
Reúso requer maior agilidade na regulamentação e infraestrutura de distribuição. Foto: REPRODUÇÃOData centers são os novos grandes consumidores de água, usada em torres de resfriamento para dissipar calor via evaporação. Um centro de médio porte pode consumir 416 milhões de litros por ano – e grandes instalações chegam a consumir o equivalente a uma cidade de 123 mil habitantes por dia. Cerca de 80% da água captada por essas estruturas evapora, sendo o restante descartado em estações municipais de tratamento de esgoto. A solução passa pelo uso de água de reúso, como já ocorre em Barueri por meio da Sabesp, para preservar os recursos potáveis limitados. Apesar do alto consumo individual, o impacto total dos Data Centers pode ser inferior a outras indústrias tradicionais, mas o crescimento rápido da IA tem alterado essas métricas.♦
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